sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Tranças e tramas...

Ontem, 30 de dezembro, fui trançar o cabelo na casa de Bete, minha amiga aqui da Liberdade. Como sempre, a dor de cada movimento da trama foi superada pelo alívio de haver tido boas companhias. Afinal, muita gente espótica junta... Só para ter uma idéia, a menor da casa, de cerca de 4 anos, disse, logo que voltou da C&A com mãe, que se tivesse encontrado a cachorrinha dela fora do lugar, ela ia "fechar"... Pensem aí!

Mas, o melhor não foi isso, com certeza. Entra uma, sai outra, e entre megas, e tranças, e dreads, e cortes, e conversa engajada com Bia, professora também, foi inevitável refletir sobre a beleza e a renovação do sentido dela reclamado por nós negros; sobre o quão é difícil ser bailarina negra em Salvador, das humilhações sofridas e caricaturas impostas; sobre os alijamentos perversos do ballet na Bahia. Quando a coisa já ia descambar para teoria, desconstrução, sem ressentimentos é claro, etc. e tal, chega Isabele, sobrinha de Bia e Bete.

Bele, muito gaiata para não fugir à norma, enriquece-nos com um susto desmedido, com altissonantes decibeis à moda soprano em final de ópera! Razão do grito: uma chamada na TV Globo do filme This is it, documentário fruto dos ensaios do astro pop Michael Jackson para um show que, infelizmente, não se realizou, ou melhor, manual prático para "vender e velar" o difunto. Continuamos todos perplexos até que tudo fosse explicado por ela, não sem muito tremer e bater os queixos.

Tento tomar de memórias as palavras dela, como que inventando verdades: "eu não consigo olhar para ele assim. As fotos de quando ele era 'pretinho' eu até consigo". Foi, aí, que eu de cá fiquei arrepiado. Por quê? Porque o óbvio veio bater de frente muito rápido comigo. Senti viva em Bele a lição que não teria matado nosso M. Jackson.

Explico-me: as mutações corpóreas - digo dessa forma para exagerar mesmo, embora não seja a melhor palavra - providenciadas por Jackson sempre me soaram como uma tentativa de pertencer à normalidade preconizada pelo discurso hegemônico americano. De fato, tê-lo feito acreditar que a cor da pele, nariz, cabelo eram signos de inferioridade que deveriam ser corrigidos é obra da engenharia naval etnocêntrica.

Daí, compreendi que, para Isabele, vivenciadora da sofisticação da beleza negra, quer pelo discurso veiculado pelo Ilê Ayê, quer pela família elegante, consciente e alegre que possui, a transformação de Michael Jackson é pavorosa. Dá medo de ver. Medo de recuperar, numa só imagem, tanto preconceito e terror. Terror, gente.. Michael Jackson é a produção alegórica pop que dá contornos precisos sobre a destruição da auto-estima negra. Michael Jackson foi assassinado. Pena a perícia não ter detectado que o culpado foi o olhar que ele aprendeu a ter de si com os outros.

Saí da casa de Bete às 22h30, pensando como eu me via e de como palavras como "moreno", "cor de formiga", "cor de canela", "chocolate", enfim, servem ainda hoje de estratégias que ajudam a muita gente negra, inclusive aqui na Liberdade, a escapar do sentido racista dado à configuração estética do negro. Indaguei: quantos jacksons não teríamos, se cirurgião plástico fosse salão de beleza. Continuei pensando e lembrei-me de uma situação tragicômica quando era "alfa-fraca" (no meio do ano fui para "forte") aqui numa escola da Liberdade. A professora, muito risonha, cumprimentava-me todo dia: "bom dia, meu nariz de batatinha". E eu achava aquilo tudo muito carinhoso, ficava orgulhoso inclusive. Depois, entendi. Hoje compreendo como um negro aprende a ter de embranquecer-se, afinal, "ninguém quer estar no time que está perdendo".

Entendam porque é uma convocação ser negro hoje e porque da necessidade de rejeitar qualquer estratégia de argumento de miscigenação. De fato, somos mestiços, mas isso não igualou racialmente ninguém aqui no Brasil e continua a nos oprimir. É que essa mistura étnica alaerdeada pela mídia branco-televisiva, esconde práticas racistas de longa vida na sociedade brasileira.

Hoje grito com Isabele e não posso continuar a ouvir Black or White da mesma forma. This is it?




4 comentários:

  1. São os espelhos pintados aos quais não olhamos para nossa figura, mas para a imagem que pintamos de nós mesmos e apenas pela auto-afirmação acreditamos ser.

    A globalização em sí é o solvente onde o soluto é o próprio Eu. Depois sobra um papa, que se molda para caber no copo que for mais bonito.

    Lindo o seu Post "teacher", muita força neste 2011.

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  2. Ontem mesmo eu estava me irritando com umas colegas. Parece que sar a expressão "negro" é algo ofensivo... Ficam usando moreno, moreninho. Isso me irrita!
    "Ah, mas seu marido é moreno." Me mate, viu?

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  3. Arizim, achei seu blog hoje quando catava seu email na net para perguntar um treco lá de Letras, e me deparei com esse texto EXCELENTE. Mesmo! Sou fã de MJ e essa questão é um engasgo brutal e vc foi no ponto: "o olhar que ele aprendeu a ter de si com os outros", essa relação elabora um tipo de racismo "sofisticado" que não aparece nos argumentos de quem acusa MJ de racista e que só deixa mais transparente para mim a podreira das "colonizações estadunidenses". Nem sei se me fiz entender, mas repito: muito boa reflexão! Beijos, Paula Alice.
    P.S. Me manda seu email! Pleaseeeee!!
    (paulalice@hotmail.com)

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